terça-feira, 19 de julho de 2011

Carta aos Profs. da UFPE









Recife, 10 de Junho de 2011.

Prezados Professores,

Venho por meio desta agradecer a paciência e o empenho que os senhores tiveram pela minha educação. Provavelmente eu fui um dos alunos mais difíceis que vocês já tiveram. Mas também devo ter sido um dos poucos que se lembrou de escrever para agradecer.

A UFPE mudou a minha vida. Quando eu cheguei aqui eu era apenas um menino e agora estou saindo um cidadão consciente e produtivo para a sociedade.

Com vocês eu aprendi muitas coisas que moldaram a minha personalidade e a minha forma de ver o mundo. Como a ter uma grande admiração pela intelectualidade, a ter capacidade de análise e síntese e, principalmente, a lidar com pessoas.

Olhando para trás, percebo que a maioria das coisas que aprendi com vocês foi fora da sala de aula. Por exemplo, na ocasião em que tentamos construir uma parceria internacional para a UFPE com o tema empreendedorismo social. Duas pessoas em especial fizeram uma diferença: Profa. Carla Pasa e Prof. Pierre Lucena.

Carla topou ser a orientadora e líder do projeto. Quando estava tentando construir a articulação institucional para a parceria, ela disse que foi questionada sobre o porque estava fazendo isso, o que ela tinha a ganhar. Ela me disse que não tinha interesse especial nos EUA nem no tema empreendedorismo social, que só estava fazendo aquilo para me ajudar. Foi então que eu aprendi que a verdadeira solidariedade é fazer as coisas pelos outros sem esperar ganhar nada em troca. E pelas pessoas que são solidárias conosco você desenvolve uma gratidão impagável.

Foi a mesma coisa com Pierre Lucena, que assinou embaixo de todas as iniciativas. Pierre fez mais do que deixar usar o seu nome ou dizer que concorda. Ele participou ativamente da discussão e usou a sua influência e contatos para concretizar a idéia. Ele é o exemplo de líder servidor e todos temos um enorme respeito por ele que foi conquistado não pela autoridade, mas pelo reconhecimento de seu trabalho. Certa vez eu ouvi que os heróis são pessoas comuns que fazem coisas extraordinárias, então Pierre é um herói para os estudantes de administração.

E qual foi o resultado da iniciativa? Nós falhamos em construir a parceria internacional sobre empreendedorismo social. No entanto, Carla pôde usar a articulação institucional para criar outra parceria internacional com o tema Sustentabilidade com a Holanda. E isso foi uma grande contribuição em prol da internacionalização do curso de administração da UFPE.

Eu fracassei na minha idéia, mas a experiência me ensinou que eu não devo temer o fracasso, pois sempre aprende-se e aproveita-se alguma coisa.

Depois do fracasso da iniciativa da parceria internacional, eu decidi procurar outras formas de trabalhar com o tema empreendedorismo social. Então fui para os EUA fazer trabalho voluntário e tive a oportunidade de cursar a disciplina Gestão de Projetos em Harvard. Foi então que eu tive contato com um novo e fascinante tema: os negócios sociais.

Existe toda uma nova indústria nascendo no mundo a partir da interação do setor privado com o setor social que dá origens à novos tipos de organizações que são autossustentáveis financeiramente mas que perseguem objetivos sociais com o mesmo afinco que perseguem o lucro.

Os negócios sociais são a próxima fronteira das ciências administrativas. E existe todo um movimento global para difundir e apoiar esse novo tipo de organização.

Na tentativa de aprender mais sobre esse assunto eu fundei a minha própria organização. A Ahimsa. (www.ahimsa.com.br)



O nome Ahimsa significa “não-violência”, e é a idéia por trás do Hinduísmo e do Budismo que inspirou o trabalho de líderes como Gandhi, Mandela e Luther King.

A não violência não significa somente abster-se de fazer o mal, mas a busca ativa por fazer um mundo melhor. Nós vamos unir esse conceito aos negócios e à tecnologia para permitir que todas as pessoas sejam a diferença que querem ver no mundo.

Somos incubados no Porto Digital e recebemos um histórico investimento anjo de uma consultoria em Responsabilidade Social de Recife chamada Myrá (www.myrabrasil.com.br).

Basicamente, a idéia que pode mudar o mundo resume-se na frase que virou a nossa missão e nosso mantra: “Ganhar bem fazendo o bem”.

Caso consigamos provar que é possível ganhar bem fazendo o bem nós podemos converter toda empresa numa máquina que gerará externalidades positivas, e faremos com que cada indivíduo e organização tornem-se um agente de transformação da sociedade.

A fim de fomentar o campo de negócios sociais em Recife a Ahimsa, a Myrá e outras organizações estão articulando iniciativas para criar-se um fundo de investimento social que irá investir em pesquisas que potencialmente levem à criação de negócios sociais. Para tanto, gostaríamos de contar com a ajuda dos senhores.

A universidade é o celeiro da inovação, é onde se encontram os talentos e as ideias que mudam o mundo. Para aproveitar esse potencial, é necessário criarmos mecanismos de incentivos para os alunos e professores se envolverem nisso.

Como sugestões práticas para desenvolver o empreendedorismo e iniciativa dos alunos, posso sugerir que:

1) Deixem eles fazerem um projeto empreendedor ligados ao conteúdo de suas disciplinas como forma de substituir uma avaliação ou ganhar pontos extras.
2) Organizar uma competição interna de projetos empreendedores.
3) Organização de eventos para difundir o tema.

Do lado do mercado nós estaremos fazendo de tudo para apoiar suas pesquisas, suas idéias e próxima geração de líderes, intelectuais e homens/mulheres de negócios que os senhores estarão ajudando a educar.

Por fim, gostaria de dizer que tenho um imenso carinho pela UFPE e sou grato a cada um de vocês.

Mas, para ser sincero, conseguir o apoio, o respeito e a consideração dos senhores foi uma das coisas mais difíceis que fiz até agora. Foram poucas as vezes que eu me senti instigado intelectualmente por suas aulas, e muitas vezes eu fui repreendido por querer expressar minha opinião e meu ponto de vista.

Vocês me ensinaram a ter mais humildade e ter respeito pela autoridade. No entanto, o que percebi pelo mundo a fora é que as pessoas que se destacam são aquelas que têm auto-confiança, lutam pelo que acreditam e não têm medo de desafiar o Status-Quo.

Sendo assim, gostaria de presenteá-los com o livro “Pedagogia da Autonomia”, de Paulo Freire. E fazer uma citação:

“É preciso que o formando, desde o princípio de sua experiência formadora, assumindo-se como sujeito também da produção do saber, se convença de que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção.
(...)
É preciso que, pelo contrário, desde os começos do processo, vá ficando cada vez mais claro que, embora diferentes entre si, quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado. É neste sentido que ensinar não é transferir conhecimentos, conteúdos, nem formar é ação pela qual um sujeito criador dá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado. Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar de diferenças que os conotam não se reduzem à condição de objeto um do outro.” (Paulo Freire, pag. 22)

Meus sinceros desejos que esse livro possa ajuda-los a lidar com essa nova geração de alunos.

Atenciosamente e respeitosamente,



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Edmilson Rodrigues do Nascimento Júnior

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